Há uma diferença fundamental entre fazer jornalismo e apenas falar ao microfone.
O jornalismo começa onde termina o achismo. Exige apuração, confronto de informações, consulta às fontes e compromisso com a verdade. Quem abre mão desses princípios deixa de informar para apenas emitir opiniões.
Foi exatamente isso que ocorreu quando um radialista de uma emissora sem contrato de prestação de serviços com a administração municipal resolveu classificar como “mentira” um dado oficial que apontou a abertura de 560 empresas em Marataízes no primeiro semestre de 2026.
Uma acusação dessa gravidade exige provas. Não basta indignação, convicção pessoal ou discurso inflamado.
Se o número fosse falso, quem estaria mentindo? A Sala do Empreendedor? A Secretaria Municipal de Planejamento e Desenvolvimento Sustentável? A Junta Comercial? A Receita Federal? O sistema Redesim, plataforma do Governo Federal alimentada pela base do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica — CNPJ?
Ou todos os veículos de comunicação que apenas reproduziram informações extraídas de bases oficiais?
Os números existem. Estão registrados e podem ser consultados.
Negá-los não muda a realidade.
Apenas revela uma preocupante resistência aos fatos.
Mais grave ainda foi a demonstração de desconhecimento sobre aquilo que se pretendia contestar.
Confundir “empresa” com “loja” é um erro elementar.
Empresa é uma classificação jurídica. Inclui Microempreendedores Individuais (MEIs), Microempresas, Empresas de Pequeno Porte e demais modalidades previstas na legislação brasileira.
Esse conceito é básico para qualquer debate econômico.
Ignorá-lo produz desinformação.
E desinformação transmitida pelo rádio ganha proporções muito maiores do que uma conversa de esquina.
O problema não está em discordar dos números.
Questionar estatísticas é saudável.
O problema está em condená-las sem realizar o procedimento mais simples do jornalismo: ouvir quem produziu a informação.
Não houve pedido de esclarecimento.
Não houve entrevista.
Não houve solicitação de documentos.
Não houve confronto de versões.
Houve apenas uma sentença lançada ao ar.
É exatamente assim que nasce a desinformação.
Um comunicador pode ter opinião.
Pode criticar governos.
Pode cobrar gestores.
Pode denunciar irregularidades.
Mas não pode transformar impressões pessoais em fatos consumados.
Quando isso acontece, o microfone deixa de servir ao interesse público e passa a servir apenas à narrativa de quem o utiliza.
E as consequências vão muito além da política.
Ao atacar um levantamento oficial sem qualquer demonstração técnica de erro, não se tenta apenas atingir o prefeito.
Também se coloca sob suspeita o trabalho de servidores públicos que diariamente atendem empreendedores, orientam novos negócios, alimentam sistemas oficiais e produzem indicadores utilizados por governos, pesquisadores e instituições em todo o país.
Esses profissionais não fazem campanha eleitoral.
Não disputam cargos.
Não frequentam palanques.
Exercem funções técnicas.
Desqualificar seu trabalho sem provas representa um desrespeito ao serviço público e à inteligência da população.
Marataízes conquistou reconhecimento estadual ao receber, pela primeira vez, o Prêmio Sebrae Prefeitura Empreendedora. Esse resultado não surgiu da retórica de autoridades nem de discursos políticos. Foi consequência de indicadores, projetos e critérios técnicos avaliados por especialistas.
Ignorar isso porque não se concorda com uma administração é substituir a realidade pelo desejo.
Infelizmente, o “radialista” parece ter abandonado uma regra elementar do jornalismo: primeiro se apura; depois se fala.
Hoje, em alguns microfones, ocorre o inverso.
Primeiro se acusa.
Depois, se houver tempo, procura-se algum argumento para sustentar a acusação.
É um modelo que produz audiência momentânea, mas destrói credibilidade.
E credibilidade é o único patrimônio que um profissional da comunicação possui.
O ouvinte pode até ser convencido por uma voz firme.
Mas continuará sendo enganado se essa voz não estiver sustentada por documentos, dados e fatos verificáveis.
O debate público precisa de crítica.
Precisa de fiscalização.
Precisa de independência.
O que não precisa é de ataques pessoais, afirmações categóricas sem comprovação e discursos construídos sobre percepções particulares.
O rádio continua sendo um dos meios de comunicação mais respeitados do país justamente por sua capacidade de informar com rapidez.
Essa força, entretanto, exige responsabilidade proporcional.
Um microfone amplia a voz.
Não amplia a verdade.
A verdade continua dependendo daquilo que sempre sustentou o bom jornalismo: documentos, apuração, equilíbrio e honestidade intelectual.
Quem troca esses pilares pela retórica pode até conquistar aplausos de uma plateia.
Mas perde aquilo que nenhuma audiência compra de volta.
A credibilidade.
Até a próxima!
Por: Portal Capixaba News



