Por Fabiano Peixoto, jornalista
O mundo acordou mais silencioso nesta segunda-feira, 21 de abril de 2025. Às 2h35 da madrugada, em Roma, a Santa Sé confirmou o falecimento de Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, aos 88 anos. Para muitos, ele foi o pontífice da compaixão, da simplicidade, da proximidade com os pobres e da abertura ao diálogo com todas as religiões. Para mim — e para a cidade de Anchieta, no Espírito Santo — ele foi muito mais. Foi o Papa que fez justiça histórica ao canonizar um dos maiores símbolos da nossa identidade: o Padre José de Anchieta.
A santificação de Anchieta, ocorrida em 3 de abril de 2014, marcou não apenas a culminância de um dos mais antigos processos da história da Igreja — iniciado ainda em 1597 — como também simbolizou o reconhecimento do papel dos jesuítas na formação espiritual, cultural e educativa do Brasil. Mais do que isso: foi um ato de valorização da América Latina, da nossa história e dos nossos símbolos.
Me recordo com nitidez do ano de 2013, quando o então Papa Bento XVI renunciou ao trono de Pedro. Era 28 de fevereiro. Conversava com Marquinhos Assad, à época prefeito de Anchieta, e compartilhei com ele algo que pulsava dentro de mim: a forte intuição de que a canonização de Anchieta estava próxima. Parecia um sinal. Pouco depois, em 13 de março, o Conclave elegeu o primeiro Papa jesuíta da história — Francisco. Era impossível não sentir o peso simbólico dessa coincidência. Um Papa jesuíta. Um padre jesuíta com processo antigo no Vaticano. Era como se o Universo estivesse me dizendo que a hora havia chegado.
E chegou. Com emoção, orgulho e esperança, vimos o antigo beato Anchieta tornar-se oficialmente santo. A cidade de Anchieta parou. Famílias, estudantes, devotos, estudiosos: todos tomados por um sentimento de pertencimento. Era como se o mundo finalmente tivesse olhado para o nosso pedaço de chão com reverência e respeito. Muitos rumaram ao Vaticano. Outros celebraram por aqui mesmo. Foi o início de uma nova fase para a cidade e para o Estado do Espírito Santo.
Lembro ainda com carinho do projeto que apresentei ao prefeito Marquinhos: o mascote “Anchietinha” — uma criancinha vestida de padre, simpática e acolhedora, que visava transformar a figura de Anchieta em um ícone do turismo religioso local, à semelhança do “Zé Gotinha”. Infelizmente, o projeto não avançou por receios políticos ligados ao perfil evangélico de parte significativa da população. Mas a ideia permanece viva, como símbolo de como poderíamos abraçar mais fortemente nossa identidade histórica e cultural.
Na sequência da canonização, através de meu grande amigo Dhyovaine Nascimento tive o privilégio de conhecer o padre César Augusto dos Santos, o primeiro reitor do Santuário Nacional de São José de Anchieta. Sacerdote jesuíta, ex-vice-postulador do processo de canonização e ex-integrante da Rádio Vaticano, ele trouxe consigo um olhar profundo sobre o papel de Anchieta na formação do Brasil Colônia. Foram encontros, conversas e momentos que enriqueceram minha vida pessoal e profissional. Padre César ajudou a aprofundar em todos nós a compreensão de que o legado de Anchieta não é apenas religioso: é cultural, linguístico, pedagógico e humanitário.
Muito do que aprendi, aprendi também com o IPHAN, com figuras como a historiadora Maria José dos Santos Cunha, e com tantos outros apaixonados pelo patrimônio brasileiro. Olhar hoje para o Santuário Nacional de São José de Anchieta — restaurado, revalorizado, com novo museu e centro de interpretação — é ter a certeza de que a semente plantada germinou. E não posso deixar de reconhecer o empenho de pessoas como Geovane Meneguelle, que contribuíram para que esse renascimento ocorresse.
Papa Francisco foi mais do que um pontífice. Foi um condutor de pontes. Um ativador de memórias. Um restaurador de símbolos. Canonizar Anchieta não foi apenas tornar santo um homem. Foi tornar visível, para o mundo inteiro, a riqueza de um povo, de uma história e de uma missão. Foi valorizar o Brasil, a América Latina e os esquecidos da história oficial.
Hoje, com o coração apertado pela notícia de sua morte, agradeço. Agradeço por ter vivido esse tempo, por ter testemunhado sua coragem, sua sabedoria, sua fé inabalável. Francisco nos fez olhar para nós mesmos com mais dignidade. E Anchieta, o santo, vive em cada canto desta cidade, em cada detalhe do museu, em cada criança que aprende sobre sua história.
Salve São José de Anchieta. Salve o Papa Francisco. E que o legado de ambos continue a nos inspirar, orientar e unir.
Fabiano Peixoto
Jornalista / Editor Chefe do Capixaba News / e entusiasta da história, cultura e fé do povo capixaba.




